VOL. 8 | N.º 3 (Número Especial)

Apresentação

Sabrina Parracho Sant’Anna, Maria Lucia Bueno, Marcelo Ribeiro Vasconcelos

DEBATES ENTRE SOCIOLOGIA E HISTÓRIA DA ARTE – -BRASIL, AMÉRICA DO SUL E CARIBE EM PERSPECTIVA

 

Artigos

DE LAS COLECCIONES DE ARTE A LAS COLECCIONES DE INDUMENTARIA. UN RECORRIDO DE INVESTIGACIÓN

María Isabel Baldasarre

Este trabajo describe el recorrido de investigación que enlaza el coleccionismo de arte con una historia visual de la moda en Buenos Aires en el período comprendido entre 1870 y 1914. Se plantean los puntos en común entre ambos objetos de estudio, así como los desafíos metodológicos y los aportes que el análisis de la moda, en tanto consumo masivo y extendido entre todas las clases sociales, ofrece a la historia cultural. Se consideran elementos como la gravitación que en ambos fenómenos tuvieron los bienes importados, la relevancia de las artes del hacer para la producción casera de indumentaria y las posibilidades del análisis material de las prendas. Este análisis, en diálogo con fuentes visuales e impresas, permite conocer mejor la cultura vestimentaria de un determinado momento histórico.

 

42, CALLE PANORAMA, LA HABANA DEL JARDÍN A LA JUNGLA: OTRAS FORMAS DE ENTENDER LO NO HUMANO EN LA OBRA DE WIFREDO LAM (1942-1946)

David Castañer

Después de vivir diecisiete años en Europa, Wifredo Lam abandona en 1941 el continente devastado por la guerra y regresa a Cuba. Este regreso a su país natal es uno de los momentos más importantes de su carrera y marca un gran cambio en la historia del arte caribeño. En pocos meses, Lam deja atrás las figuras antropomórficas depuradas de su época parisina, se interesa brevemente por el retrato al óleo y experimenta con el gouache sobre papel encolado, creando una serie de cuadros que le llevarán a La Jungla (The Jungle) (1943), que muchos consideran la obra maestra fundacional del arte contemporáneo latinoamericano. En general, se coincide en que el regreso a su país natal provoca tres cambios en la posición artística de Wifredo Lam. En primer lugar, la relación con lo extraordinario de la realidad deja de expresarse en la gramática surrealista del poder oculta en el inconsciente para expresarse en forma de un real maravilloso capaz de abarcar las creencias y los mitos locales. En segundo lugar, las luchas revolucionarias europeas — Wifredo Lam es un marxista convencido que luchó del lado de los republicanos durante la guerra de España — se transforman progresivamente en la Cuba de la República mediatizada por un posicionamiento anticolonialista y antiimperialista. Por último, la referencia al arte africano, tan arraigada en las prácticas artísticas de la vanguardia parisina de entreguerras, se convierte en Lam en un canto al reconocimiento de las culturas caribeñas de origen africano.

ANTÔNIO BENTO E A PARTICIPAÇÃO BRASILEIRA NO 1O E 2O CONGRESSOS DA AICA (1948-1949) INTERNACIO NALIZAÇÃO E PROFISSIONALIZAÇÃO DA CRÍTICA DE ARTE NO BRASIL

Marcelo Ribeiro Vasconcelos

O artigo analisa a internacionalização da crítica de arte brasileira via participação no 1º e 2º Congressos da AICA (1948-49). A ênfase na atuação de Antônio Bento permite observar uma estratégia mobilizada pelos críticos brasileiros fundamentada no uso desse circuito transnacional para legitimar um novo modelo profissional, especializado e objetivo, em oposição à crítica “literária” anterior. A análise das colunas de Bento revela como ele mobilizou debates e autoridades internacionais para reconfigurar sua posição no campo da crítica de arte e seus julgamentos sobre o abstracionismo. A criação da ABCA como seção nacional consolida esse processo, que conferiu aos críticos autoridade simbólica para atuar nas novas instituições do campo artístico brasileiro em formação.

 

BIENAIS DE SÃO PAULO NOS ANOS 1970: CRISE OU URGÊNCIA DE REVISÃO?

Renata Cristina de Oliveira Maia Zago

Este artigo investiga a crise das Bienais de São Paulo na década de 1970, compreendida como efeito das tensões entre o projeto de internacionalização do evento, concebido em moldes modernistas, e a emergência de debates em um contexto “pré-global”. A partir do boicote internacional de 1969, analisa-se como a Bienal se viu alvo de críticas à sua gestão institucional, à pretensa neutralidade do modelo expositivo e ao alinhamento com o regime civil-militar. Examina-se ainda as respostas institucionais, como as Bienais Nacionais e as mesas-redondas de crítica, além do estudo de caso do grupo Etsedron, cuja inserção da cultura popular nordestina tensionou padrões internacionalistas. Conclui-se que, embora não tenha superado plenamente a crise, a Bienal desempenhou papel central ao evidenciar contradições entre global e local, centro e periferia, oficialidade e resistência.

 

CRIAÇÃO DE VALOR, ATIVOS ECONÔMICOS E SALVAGUARDA SOCIAL NOS MODELOS DE INTERCÂMBIO DE ARTE ARGENTINA CONTEMPORÂNEA

Viviana Usubiaga

A história recente do mercado de arte na Argentina está em construção1. Esta apresentação tem como objetivo contribuir para o seu fortalecimento, reunindo uma série de experiências que moldam o mercado de arte argentino contemporáneo, e colaborar com novas reflexões sobre a criação de valor no campo artístico, sobre a arte considerada como um ativo econômico e, especialmente, sobre as práticas artísticas como uma salvaguarda social nos modelos de intercâmbio da arte argentina contemporânea.

 

PROYECTO LAB_MUSEOS: DESAFÍOS INSTITUCIONALES, DISCURSIVOS Y PROFESIONALES. BALANCE Y PERSPECTIVAS

Raíza Ribeiro Cavalcanti

Marisol Facuse Muñoz

Este artículo tiene como objetivo analizar cómo los desafíos identificados por las y los profesionales de museos durante la primera etapa del proyecto LAB_Museos (2020-2021) han sido abordados o bien siguen vigentes hoy, a cinco años de la implantación de este proyecto en terreno, a través de diversas actividades y acciones institucionales. Para ello, centraremos nuestro análisis en los museos de arte participantes de esta primera etapa, con especial atención a dos casos: el Museo Nacional de Bellas Artes (MNBA) y el Centro Nacional de Arte Contemporáneo (CNCA). Tomando como referencia los Museum Values Frameworks (Davies et al., 2013), así como las prácticas cotidianas institucionales mencionadas por los profesionales participantes en el proyecto. En este diseño se buscó identificar tanto los valores centrales que orientan el discurso y las prácticas profesionales en estas instituciones, como las problemáticas y desafíos considerados cruciales para su avance institucional. El texto busca observar no solo la continuidad y profundización de los elementos identificados como centrales en el proceso de diagnóstico, sino también analizar cómo los marcos de valores organizacionales se han materializado institucionalmente a través de programas y acciones concretas desarrolladas en cada uno de los casos.

PERSPECTIVAS NEGRAS PARA A SOCIOLOGIA DA ARTE BRASILEIRA: A EXPOSIÇÃO AFRO-BRASILIDADE E A ATUALIDADE DE GUERREIRO RAMOS

Guilherme Marcondes

Este artigo propõe um exercício analítico da exposição Afro-brasilidade: uma homenagem a dois Valentins e a um Emanoel (2025), projeto da FGV Arte, utilizando como referência o arcabouço teórico legado por Alberto Guerreiro Ramos (1915-1982), em especial sua proposição da redução sociológica (1958). A análise parte do pressuposto de que a obra de Guerreiro Ramos, ao propor a contextualização crítica de categorias e referenciais importados, oferece instrumentos valiosos para compreender a produção artística brasileira a partir de suas especificidades históricas, sociais e culturais. Pretende-se demonstrar como seus conceitos podem contribuir para ampliar os horizontes da sociologia da arte no Brasil, fortalecendo abordagens que considerem a centralidade das experiências e epistemologias negras na constituição do campo artístico e na interpretação de suas manifestações contemporâneas.

 


VOL. 8 | N.º 2

Apresentação

Paula Guerra 

OLHARES, CENAS, CONTRA-CENAS E DESVIOS

 

Artigos

“VILA SOCÓ, MEU AMOR” (1984): A(R)TIVISMOS NA OBRA DE GILBERTO MENDES (1922-2016)

Ana Paula dos Anjos Gabriel

Vila Socó, em Cubatão, Brasil, foi acometida por incêndio em fevereiro de 1984, causado por vazamento de duto da Petrobrás, com a morte estimada de centenas de moradores. Em homenagem aos mortos, Gilberto Mendes (1929-2016) compôs Vila Socó, meu amor (1984). Resultado de projeto de pesquisa, o presente trabalho pretende discutir o a(r)tivismo da produção artística de Gilberto Mendes a partir de Vila Socó, meu amor (1984) e de fontes documentais ligadas a Mendes e à sua produção artística. Para tanto, utiliza Marques de Melo e Assis (2016) e Certeau (2011) como referenciais teóricos. Como resultados, verificou-se que Vila Socó, meu amor expõe crítica ao capitalismo e à sociedade de consumo, semelhantemente a outras obras do compositor. Quarenta anos depois do incêndio, a obra permanece como forma de resistência política através da arte e trata de questões sociais, ambientais e políticas que permanecem atuais.

 

CINEMA, MASCULINIDADES E SOCIABILIDADES: O CONSUMO DOS FILMES DE KUNG FU E PORNOCHANCHADAS NA CIDADE DE TERESINA, PIAUÍ (1976-1982)

Júlio Eduardo Alvarenga
Frederico Osanan Lima
Paula Guerra

O presente artigo tem o objetivo de analisar como o consumo fílmico na cidade Teresina (Piauí, Brasil) possibilitou múltiplas representações de masculinidades e reconfigurações dos costumes, a partir dos filmes dos gêneros kung fu e pornochanchadas – principais obras exibidas durante o período estudado. As telas de cinema de estabelecimentos como Cine Royal e Cine Rex foram instrumentos que veicularam representações de erotismo, sexualidade, violência e artes marciais que eram consumidas, principalmente, pelo público masculino. Desta forma, para além do consumo dos filmes, estes locais se constituíam enquanto espaços de sociabilidade que poderiam corroborar para a consolidação de masculinidades viris e heteronormativas, em um contexto de liberalização das práticas sexuais, a depender de como os homens consumiam as obras exibidas. No decorrer da pesquisa, foram utilizadas entrevistas com frequentadores dos cinemas e fontes hemerográficas dos jornais O Dia e O Estado, que divulgavam os filmes em cartaz, assim como notícias relacionadas às práticas e costumes que envolviam as salas de cinema. Alguns dos interlocutores elencados para a discussão foram Pierre Bourdieu e Stuart Hall.

EAST ART MAP| TU(O)RNS_AROUND

Lais Rabello de Andrade

Esse artigo explora o projeto East Art Map, desenvolvido pelo coletivo IRWIN, situando-o como uma resposta crítica à hierarquia taxonômica da história da arte ocidental universal (Močnik, 2006). O projeto, dividido em duas fases, insere práticas artísticas e conexões do Leste Europeu que antes foram silenciadas. Enquanto prática de pesquisa artística, o East Art Map alinha-se a teorias contemporâneas como research-based art (Bishop, 2023) e educational turn (Rogoff, 2008). Politicamente, o projeto incorpora o spatial turn (Piotrowski, 2012), sublinhando a necessidade de abordar a geopolítica nas práticas artísticas, como um meio de produzir conhecimento que transcende o colonialismo.

 

EM BUSCA DAS DIFERENÇAS. ENSAIO PRELIMINAR FACE A UMA SOCIOLOGIA DA NEURODIVERSIDADE

José Bola

O fenómeno da neurodiversidade tem sido encarado como uma categoria central nos debates sobre diferença, saúde mental e inclusão. O modo como circula é espelhado no campo académico, marcado por ambiguidades disciplinares. Este trabalho promove, de forma exploratória, um pensamento que reflita a neurodiversidade enquanto construção social da doença. Em vez de a destacar como variação neurológica, percorremos uma revisão narrativa sobre o modo como se converte num marcador social daquilo que é típico ou desviante, articulando teoria sociológica clássica e contemporânea. A partir da historicidade, dos paradigmas contemporâneos e de possíveis desafios emergentes, argumentamos que a neurodiversidade deveria funcionar como uma ramificação disciplinar da Sociologia, uma gramática cultural que pode redefinir as fronteiras do interacionismo simbólico. A lacuna consistente de literatura nacional torna necessário problematizar a neurodiversidade enquanto construção social, explorando os efeitos que produz nos indivíduos.

 

FOTOGRAFIA SENSORIAL: UMA EXPERIÊNCIA DE EDUCAÇÃO ARTÍSTICA JUNTO ÀS PESSOAS COM CEGUEIRA E BAIXA VISÃO

Cristianne Melo

Comumente a prática fotográfica não é inclusiva, as barreiras envolvem questões físicas, técnicas, comunicacionais e atitudinais. Ademais, o domínio da visão impera sobre o consumo e a produção de imagens. No entanto, pode-se questionar: o que a fotografia captura para além da visão? Há uma relação entre o visível e o invisível que atravessa a imaginação, a memória, os sentidos, as experiências, os afetos. Assim, a produção fotográfica não pode ser resumida à capacidade de enxergar, faz-se necessário expandir nossa compreensão sobre o ver, questionar a hegemonia visual, bem como ampliar a experiência sensorial no universo criativo da fotografia. Neste sentido, o presente estudo descreve uma experiência de educação artística junto às pessoas com deficiência visual, ao relatar encontros que estimularam a construção artística, sensorial, discursiva e simbólica por meio dos sentidos, como o tato, audição, paladar e olfato.

 

BREAKCORE OU A CONTEMPORANEIDADE DE UM GÉNERO REAVIVADO

Pedro Ferreira

A internet, ao longo das décadas, tem-se solidificado como um espaço onde as representações de vários traços socioculturais da sociedade contemporânea se demonstram com clareza, e isto está cada vez mais nítido na expressão artística também. O breakcore aparece como um desses elementos, como movimento artístico visual e auditivo, mas também como figura cultural da internet. Este estilo moderno, apesar de nascer dentro das subculturas underground juvenis e industriais dos anos 90, acaba por evoluir e ser apropriado e incorporado pela internet durante os 2010s. Desta forma, os simbolismos originais do breakcore transfiguramse, passando de algo focado dentro de um segmento geográfico, punk, revolucionário, para algo descartado de espaços e rituais físicos, onde os clubes são substituídos pelos social media. Esta transição de cenas musicais é essencial para perceber o breakcore sociologicamente, onde devemos ter em conta certas mudanças que relembram traços compositivos da cena musical underground moderna, difusa na internet.

 

WALK ON MY SHOES E “O INFERNO” DE SER “O OUTRO”: DIVERSIDADES E DESAFIOS PRESENTES NOS SILENCIAMENTOS FEMININOS

Martina Viegas
Luara Fukumoto

Nascer, tornar-se, reconhecer-se mulher? Questões em contextos de mobilização e reflexão sobre os desafios nos silenciamentos que tocam mulheres (nascidas ou que se reconhecem como mulheres): "as donas de casa", a quem não é permitido ser "donas de si"; as "egoístas" que não desejam ser mães, colocando em xeque expectativas biológicas; as "arrogantes", "autocentradas" demais; as objetificadas; as que "queimam" semelhantes em fogo amigo... Exemplos que mostram que desde o ventre são atribuídos às mulheres papéis de utilidade que tornam-se ferramentas de controle social, os quais acreditamos tratarem-se de ferramentas moderadoras da liberdade feminina - por permearem todos os silenciamentos, como demonstramos aqui por meio de um olhar Comunicacional-Afetivo-Ético e Estético em formato de ensaio - manifesto feminista. Apresentamos, deste modo, (neste artigo e em primeira mão), nosso projeto Walk On My Shoes, onde expandimos nossa abordagem de feminismo com autoras feministas que consideram diversas interseccionalidades atravessadas em sociedade pela cultura patriarcal aqui representada materialmente e por vias da Arte e Design em proposições provocativas de calçados femininos.

 

Resenhas/Recensões

RECENSÃO CRÍTICA DO LIVRO. TETRAPHÁRMAKOS DE ALBERTO PIMENTA

Lúcia Evangelista

O texto consiste numa recensão da reedição, pela editora 7Nós, dos quatro livros de estreia de Alberto Pimenta — O Labirintodonte (1970), Os Entes e os Contraentes (1971), Corpos Estranhos (1973) e Ascensão de Dez Gostos à Boca (1977) — agora reunidos na caixa-conjunto Tetraphármakos (2025). Mais do que uma operação de recuperação editorial, a publicação é lida como um objeto performativo que materializa a dimensão corporal, histórica e política que atravessa a obra do autor. Destacam-se, nos livros iniciais, traços que atravessam a sua poética, como o viés metapoético, a paródia e a crítica às formas hegemónicas — poéticas e sociais —, bem como a transformação formal dos poemas em função de contextos históricodiscursivos distintos.

 

 


VOL. 8 | N.º 1

Apresentação

Paula Guerra 

PALCOS EM DISPUTA. O PALCO DA IMAGINAÇÃO. O PALCO DOS CONFLITOS. O PALCO DAS RESISTÊNCIAS

 

Artigos

A TRANSFORMAÇÃO DO OLHAR: ESTÉTICA DECOLONIAL NA ARTE CONTEMPORÂNEA BRASILEIRA E PORTUGUESA

Victor Tuon Murari
O artigo investiga como a estética decolonial transforma o campo da arte contemporânea brasileira e portuguesa, propondo novas narrativas que desafiam a hegemonia eurocêntrica e promovem a valorização de práticas artísticas marginalizadas. Baseado em referenciais teóricos como Aníbal Quijano e Walter Mignolo, o estudo analisa a descolonização do olhar, enfatizando a importância de resgatar sensibilidades e saberes silenciados. No Brasil, a produção artística destaca questões ligadas à diáspora africana, culturas indígenas e memória da escravidão. Em Portugal, as obras refletem criticamente sobre o legado colonial e suas implicações atuais. O artigo conclui que a estética decolonial não apenas revisita a história da arte, mas a ressignifica, apontando para futuros mais inclusivos no âmbito da criação, circulação e recepção artística.
 

IMAGEM E PALAVRA: RASTREANDO AS BORDAS DA CRIAÇÃO

Monica Toledo Silva

A compreensão do trabalho artístico como processo, pensamento e performance do corpo é apresentada neste artigo através da discussão acerca da intersubjetividade em práticas de troca e exercícios de presença, como viabilizadores do ato de criar imagens. O texto une termos de Édouard Glissant (relação), Augustin Berque (pensamento paisagem), William James (experiência), Janet Bennett (actante), dentre outros, filósofos e estudiosos da performance exemplificam uma abordagem entre sujeitos e objetos desde um entendimento da criação como uma ação do corpo inserida num tempo e lugar determinantes na elaboração de enunciados. Poemas do livro Deságua e imagens videográficas compõem esta proposta de entendimento da criação como ato híbrido enraizado na experiência e na vivência como relação.

REINVIDICAR O PODER: AUTODEFESA E VULNERABILIDADE EM GENTILESCHI E BOURGEOIS.

Francisca Sousa

Ao longo da história, a ideia de poder do e sobre o corpo tem sido um tema central no mundo da arte. Representado sobre os seus vários contextos - político, social, físico, sexual -, o poder exibe-se enquanto ideia complexa entre o domínio físico e a força de carácter abstrato. Frequentemente associado na arte à violência e à brutalidade masculina, o poder promulga-se especialmente sobre o corpo feminino, inevitavelmente através de um jogo de domínio e submissão. Ter poder sobre o próprio corpo é um dos aspectos mais importantes do trabalho das artistas da década de 1970, que se prolonga até aos dias de hoje debaixo dos holofotes de movimentos como o "Me Too" e de outros questionamentos acerca das políticas do corpo. Não esqueçamos que não só na contemporaneidade se dão estas reivindicações, uma vez que a pintora barroca Artemisia Gentileschi dedicou grande parte da sua obra ao triunfo da heroína feminina sobre um antagonista masculino. De formas mais subjetivas, o poder é reclamado por Louise Bourgeois através da vulnerabilidade com que trata a sua poderosa identidade feminina. A mulher transforma-se numa lâmina para enfrentar o trauma.

 

DE MULHER-OBJETO A RAPPER-SUJEITO: O LUGAR DA MULHER NO RAP PORTUGUÊS

Rafaela Enes de Miranda

Este artigo científico prende-se com os papéis de género, nomeadamente os papéis femininos, e o género musical do RAP, em particular no caso português, e o modo como as questões feministas na arte urbana são inerentemente revolucionárias, especialmente no contexto atual de retrocessos de direitos humanos e das mulheres a nível global. Consideramos pertinente a análise desta temática tendo em conta a problemática do enviesamento masculino e misógino das narrativas do RAP e das suas implicações nos/as ouvintes. A partir desta problemática, procuraremos fazer uma contextualização histórica e social do RAP português, abordando as relações, as dinâmicas e os papéis de género dentro deste tipo de música, nomeadamente os papéis assumidos pelas mulheres. Neste sentido, analisaremos as dez canções de RAP mais populares em Portugal por artistas de nacionalidade portuguesa ou luso-descendente, em que cinco destas são de autoria de rappers masculinos e as restantes cinco de rappers femininas.

 

A EXECUÇÃO DO IMPERADOR MAXIMILIANO (1868-69) DE MANET EM PERSPECTIVA ECFRÁSTICA

Fabiane Magalhães Machado e Niura Aparecida Legramante Ribeiro

Este artigo analisa a obra A execução do Imperador Maximiliano (1868-69) de Édouard Manet a partir da perspectiva da écfrase, explorando as relações entre pintura, fotografia e narrativa histórica. Considera-se a possível influência de registros visuais e relatos jornalísticos da época no processo criativo do artista. A análise aborda, ainda, as questões políticas que cercam a obra, como a censura a uma litografia sobre o mesmo tema e a rejeição da pintura pelo Salon de 1869, refletindo sobre as conexões entre arte, poder e memória.

 

“INFLAMANDO O ARDOR BÉLICO”: O TEATRO EM LISBOA DURANTE AS INVASÕES FRANCESAS (1808-1810)

João Victor Ribeiro Pires

Através de fontes variadas como a imprensa e a documentação da polícia, este artigo analisa o papel desempenhado pelo teatro em Lisboa durante o período das invasões francesas, isto é, entre 1808 e 1810. Defendemos que, apesar do período ter resultado em marcantes dificuldades para os profissionais das principais casas de espetáculo da cidade, as ações dramáticas tiveram um direcionamento político e representaram um espaço de difusão de ideias e um campo de resistência aos franceses na capital do reino.

 

TEMOR DA IDADE ADULTA: DRAMA DE ONTEM E DE HOJE

Silvia Regina dos Santos Coelho, Candido Alberto Gomes e Ivar César Oliveira de Vasconcelos

Este trabalho investiga as relações entre os mitos clássicos na fábula de Peter Pan, narrada pela obra audiovisual “Em Busca da Terra do Nunca”, com o objetivo de analisar as implicações sociais e educacionais do temor da idade adulta que acomete jovens na infância e adolescência. Além disso, verificam-se as implicações do aumento da expectativa de vida das populações contemporâneas, com a sua coorte de mudanças sociais, educacionais e econômicas. Assim, cresce o tempo de espera para a vida adulta, em meio a angústias e transtornos. A análise bibliográfica se baseou na filosofia de Platão, no pensamento de Edgard Morin e na perspectiva sociológica de contemporâneos, além de remeter a itens da teoria psicanalítica. Concluímos que as dificuldades de ingresso na vida adulta conferem maior complexidade às identidades atuais.

 

Resenhas/Recensões

RESENHA DO LIVRO. ESTÉTICA E EMPODERAMENTO: ARTE CONTEMPORÂNEA DA EUROPA CENTRAL PÓS- SOCIALISTA

Lais Rabello de Andrade

Esta recensão propõe uma leitura de “Empowering Aesthetics: Contemporary Art from Post-Socialist Central Europe”, de Denisa Tomková, como um gesto crítico inscrito na interseção entre arte e política. Contra a tendência de ver nessa justaposição um enfraquecimento mútuo — seja da autonomia da arte, seja da potência política — Tomková formula o conceito de empowering aesthetics para nomear práticas artivistas que problematizam esse entrelugar, abrindo-o como espaço de resistência e de empoderamento do coletivo através do indivíduo. O livro opera sob a lógica local-global, trazendo estudos de caso referentes à Europa Central pós-socialista — práticas situadas de artistas Romani, da diáspora vietnamita, queer, feministas e com deficiência — para formular fabulações críticas que mostram como as práticas artísticas podem intervir nos modos pelos quais identidades e comunidades são atravessadas pela violência estrutural. Assim, “Empowering Aesthetics” reinscreve a estética como espaço de resistência cotidiana, duracional e contínua, que almeja a destituição de estereótipos coloniais e patriarcais através da sua apropriação.

 

RESENHA DE LIVRO. A NOVA FOTOGRAFIA: RESPONSABILIDADE NA COMUNICAÇÃO VISUAL

Márcia F. S. Gonçalves

Frank Webster, sociólogo britânico, analisa criticamente a fotografia enquanto meio de comunicação simbólica e instrumento de propaganda. A obra, dividida em oito capítulos, explora a evolução tecnológica da fotografia, a sua relação com o fotojornalismo e os impactos culturais e políticos da imagem. Webster argumenta que a fotografia, embora aparentemente objetiva, é sempre mediada por códigos culturais e subjetividades individuais. Através de uma abordagem interdisciplinar — sociologia, antropologia, linguística e comunicação — o autor desconstrói símbolos visuais, questiona estereótipos e revela o papel político do fotógrafo. Defende que a compreensão dos mecanismos comunicativos e culturais pode formar fotógrafos mais conscientes e críticos. Apesar de datado estilisticamente, o livro permanece relevante ao evidenciar como a fotografia é tomada como verdade, sem questionamento, e carregada de significados culturais.

 

 


Chamada para propostas | VI ENCONTRO INTERNACIONAL LUSÓFONO 2026

VI ENCONTRO INTERNACIONAL LUSÓFONO

TODAS AS ARTES | TODOS OS NOMES

ENTRE RUÍNAS E NOSTALGIAS. ARTES, PERIFERIAS, IDENTIDADES E COLAPSOS

 

SUBMISSÃO DE RESUMOS

De 10 de novembro a 15 de março de 2026.

Website: https://www.todasasartes.pt/

E-mail: [email protected]

 

DATAS

13 e 14 de julho de 2026

 

LOCAIS

Faculdade de Letras da Universidade do Porto

 

Reunindo pesquisadores brasileiros, portugueses e de outras nacionalidades, o VI Encontro Internacional da Rede Todas as Artes | Todos os Nomes, que terá lugar na cidade do Porto, nos dias 13 e 14 de julho de 2026, propõe refletir sobre o lugar da cultura popular e das estéticas do “mau gosto” nas culturas contemporâneas. Partindo das expressões populares como o pimba e o brega enquanto exemplos acabados, este encontro convida à realização de uma análise crítica daquelas que são as margens sonoras, visuais e performativas da cultura e das artes na atualidade, questionando os mecanismos de distinção, de hierarquização e de legitimação artística que as definem.

Nas últimas décadas, o chamado “mau gosto” foi recorrentemente associado a uma estética popular, kitsch, sentimental e melodramática, frequentemente desvalorizada pelas elites culturais - como nos relatava já Bourdieu nos seus trabalhos seminais - mas profundamente enraizada no imaginário coletivo. Hoje, assiste-se a uma revalorização e a um revivalismo destas expressões, na medida em que artistas, DJs, produtores e curadores resgatam o periférico, o pimba, o brega, o arrocha ou o tecnobrega, transformando-o em símbolo de identidade e pertença; de memória e de nostalgia. Entre a celebração nostálgica e a reapropriação crítica, o revivalismo da cultura popular - nestes tempos de guerra e de ruínas - levanta questões sobre memória, autenticidade, classe, género, regionalismo e (de)colonialidade do gosto. Desta feita, este Encontro propõe um debate plural e interdisciplinar sobre estas expressões, convocando os olhares da sociologia, da antropologia, estudos musicais, estudos culturais, da comunicação e das artes performativas, entre outros.

O fulcro está na necessidade de pensar o pimba, o periférico e o brega não como anomalias, mas como dispositivos de memória e de resistência, formas de expressão que revelam as contradições da modernidade tardia, da globalização e das hierarquias do gosto. Então, a estética do “mau gosto” surge, aqui, como uma linguagem de subversão, ou seja, como um espaço onde o excesso, o sentimentalismo e a ironia desestabilizam fronteiras entre o erudito e o popular, o urbano e o rural, o nacional e o transnacional.

Desta feita, o evento reunirá pesquisadores e criadores de diversas áreas — como sociologia, antropologia, filosofia, estudos urbanos, arquitetura, artes visuais, música, literatura e tecnologia — que explorem tanto as culturas populares lusófonas (pimba, brega, funaná, kizomba, kuduro, sertanejo, fado popular, entre outras) quanto os seus revivals e recontextualizações no cinema, nas artes visuais, na moda, na internet e nas culturas juvenis. Então, dando continuidade à missão da Rede Todas as Artes | Todos os Nomes, este VI Encontro Internacional incentiva abordagens inovadoras e críticas que cruzem a arte, a ciência e a sociedade do Norte ao Sul Global num ímpeto (contra) (de)colonial.

 

OPEN CALL_Congresso_TAA_2026_PT


Todas as Artes | Todos os Nomes Vol. 4

Estimados/as colegas,
 
É com muita alegria que partilhamos convosco que já se encontra disponível o livro Todas as Artes, Todos os Nomes (Vol. 4).

2025 – GUERRA, Paula & SOUSA, Sofia (Org.) (2025). Guerra & Sousa (2025). Todas as Artes. Todos os Nomes. Vol. 4. Porto: Universidade do Porto – Faculdade de Letras [University of Porto. Faculty of Arts and Humanities]. ISBN 978-989-9193-07-9.

Boas leituras!


VOL. 7 | N.º 3 (VOLUME ESPECIAL)

Apresentação

Maria Lúcia Bueno, Marcelo Ribeiro Vasconcelos, Sabrina Parracho Sant'Anna

DEBATES ENTRE SOCIOLOGIA E HISTÓRIA DA ARTE. AMÉRICA DO SUL E BRASIL EM PERSPECTIVA

 

Artigos

COLEÇÕES DA VISCONDESSA DE CAVALCANTI. UM LEQUE DE AUTÓGRAFOS E A PRESENÇA DE PORTUGUESES

Maraliz de Castro Vieira Christo

O artigo apresenta alguns aspectos das coleções de Amélia Machado Cavalcanti (1852-1946), viscondessa de Cavalcanti a partir de 1888, presentes no acervo do Museu Mariano Procópio. Centramo-nos na coleção de 68 autógrafos de célebres escritores, artistas, músicos, atores, cientistas, exploradores e políticos de seu tempo, apostos em um leque, entre 1890 e 1945. Dada à sua amplitude, destacamos a presença dos portugueses: Abílio Manuel Guerra Junqueiro (1850-1923), Anthero de Quental (1842-1891), Eça de Queiroz (1845-1900), Joaquim Pedro de Oliveira Martins (1845-1895), Ramalho Ortigão (1836-1915), Alexandre de Serpa Pinto (1846-1900), Raphael Bordallo Pinheiro (1846-1905) e Arthur Napoleón (1843-1925).

O PERCURSO DA COLEÇÃO SPANUDIS. DO MUSEU DOMÉSTICO AO MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA DA USP

Maria Izabel Branco Ribeiro

O psicanalista grego, poeta e crítico de arte Theon Spanudis chegou a São Paulo em 1950. Iniciou sua coleção de arte brasileira com Casas de Itanhaém, 1948 de Alfredo Volpi. Em 1979 doou para o Museu de Arte Contemporânea da USP 453 obras de arte, assinadas por 35 artistas, entre eles: Volpi, Sacilotto, Mira Schendell, José Antonio da Silva, Eleonore Koch e Rubem Valentim. A maior parte delas apresenta estrutura bem definida e tendência à bidimensionalidade, independente se figurativas ou abstratas. São exemplares do conceito de construtivismo formulado pelo proprietário. Em outras palavras, são obras de arte com organização formal e potencial fabulador, passíveis de apreensão intuitiva pelo observador e propiciadoras de experiências estéticas que identificava como próximas da “religiosidade sem ritos e mitos”.

ARTES INDÍGENAS NO MUSEU DE ARTE DE SÃO PAULO

Ilana Seltzer Goldstein e Vitória Oliveira Machado

Esse artigo explora a inserção e exibição das artes indígenas no Museu de Arte de São Paulo (MASP), com foco na última década. Com a reabilitação dos cavaletes de vidro de Lina Bo Bardi em 2015, e a inclusão de segmentos antes marginalizados, o MASP consolidou seu compromisso com a diversidade cultural, especialmente em suas exposições temáticas. O museu passou a convidar artistas, intelectuais e curadores indígenas para participar de seminários e exposições. O texto analisa mostras como "Histórias Indígenas" (2023), reunindo obras de vários países sob curadoria indígena, e discute como trabalhos indígenas são exibidos na mostra de longa duração do MASP, junto a pinturas renascentistas e modernistas. Resultados preliminares apontam a necessidade de revisão e ampliação dos modos de participação de artistas e pensadores não-hegemônicos nas decisões do museu.

ADRIANA VAREJÃO, ERNESTO NETO E A ARTE CONTEMPORÂNEA BRASILEIRA. ANOTAÇÕES INCOMPLETAS

Glaucia Villas Bôas

Neste artigo, comparo as obras e os discursos de Adriana Varejão e Ernesto Neto, brasileiros pertencentes a uma bem sucedida geração de artistas da arte contemporânea. Indago pelas noções de passado, presente e futuro que se inscrevem nos seus trabalhos e como a temporalidade singular de suas obras se associa ao teor da missão que atribuem à arte. Minha hipótese é de que na passagem da arte moderna para a arte contemporânea, descartou-se a prerrogativa de a arte imaginar/fantasiar um só futuro, porém, manteve-se a pretensão de aproximá-la do espectador. A política de aproximação da arte, contudo, sofreu tal reviravolta que não se trata mais, tão somente, de despertar os sentimentos do espectador ou torná-lo um ser dotado de sensibilidade, mas, efetivamente, de convidá-lo à participação política.

MULHERES ARTISTAS E ESPAÇO PÚBLICO. POSSIBILIDADES POÉTICAS DE ENFRENTAMENTO DA CIDADE

Fernanda Pequeno

Anna Bella Geiger (Rio de Janeiro, 1933), Livia Flores (Rio de Janeiro, 1959) e Lygia Pape (Nova Friburgo, 1927-Rio de Janeiro, 2004) são três mulheres artistas atuantes no Brasil. Oriundas de gerações distintas e com trabalhos diversos, no texto abordamos obras e proposições que confrontam o Rio de Janeiro e também a sua região metropolitana. Tomar o espaço público com seus corpos, os de seus estudantes ou para propor apreensões críticas da cidade é o que une as três artistas aqui elencadas. Circumambulatio, Espaços Imantados, Inserção em retrovisão e Rastreamento do Rio Morto (Passa batido, mas não despercebido) foram realizados entre 1968 e 2010 e abordam o Rio de Janeiro a partir de uma perspetiva poética, mas não purista. Os quatro trabalhos elencados não aludem a uma cidade turística, do cartão-postal, mas apontam uma relação cotidiana com a urbe, conotando enfrentamentos do espaço público da capital carioca em distintos momentos de sua história.

 

Registos de Pesquisa

A DESCONSTRUÇÃO DO OLHAR NA ARTE E NA CULTURA VISUAL. UMA RESENHA DO LIVRO MODOS DE VER

Júlia Almeida de Mello

Resenha do livro Modos de ver (Ways of Seeing), de autoria do crítico de arte britânico John Berger, publicado pela primeira vez em 1972, em decorrência do programa televisivo homônimo da British Broadcasting Corporation. Londres: Penguin Books. A versão mais recente traduzida para o português foi publicada em 18 de janeiro de 2023 pela Fósforo Editora (São Paulo).

 

O CORPO FEMININO NAS NUANCES DO NU E DO DESPIDO. UMA RESENHA DO LIVRO THE FEMALE NUDE: ART, OBSCENITY AND SEXUALITY

Júlia Almeida de Mello

Resenha do livro The female nude: art, obscenity and sexuality. 1 ed. Londres: Routledge, 1992, de autoria da historiadora da arte Lynda Nead.