Apresentação

Paula Guerra 

OLHARES, CENAS, CONTRA-CENAS E DESVIOS

 

Artigos

“VILA SOCÓ, MEU AMOR” (1984): A(R)TIVISMOS NA OBRA DE GILBERTO MENDES (1922-2016)

Ana Paula dos Anjos Gabriel

Vila Socó, em Cubatão, Brasil, foi acometida por incêndio em fevereiro de 1984, causado por vazamento de duto da Petrobrás, com a morte estimada de centenas de moradores. Em homenagem aos mortos, Gilberto Mendes (1929-2016) compôs Vila Socó, meu amor (1984). Resultado de projeto de pesquisa, o presente trabalho pretende discutir o a(r)tivismo da produção artística de Gilberto Mendes a partir de Vila Socó, meu amor (1984) e de fontes documentais ligadas a Mendes e à sua produção artística. Para tanto, utiliza Marques de Melo e Assis (2016) e Certeau (2011) como referenciais teóricos. Como resultados, verificou-se que Vila Socó, meu amor expõe crítica ao capitalismo e à sociedade de consumo, semelhantemente a outras obras do compositor. Quarenta anos depois do incêndio, a obra permanece como forma de resistência política através da arte e trata de questões sociais, ambientais e políticas que permanecem atuais.

 

CINEMA, MASCULINIDADES E SOCIABILIDADES: O CONSUMO DOS FILMES DE KUNG FU E PORNOCHANCHADAS NA CIDADE DE TERESINA, PIAUÍ (1976-1982)

Júlio Eduardo Alvarenga
Frederico Osanan Lima
Paula Guerra

O presente artigo tem o objetivo de analisar como o consumo fílmico na cidade Teresina (Piauí, Brasil) possibilitou múltiplas representações de masculinidades e reconfigurações dos costumes, a partir dos filmes dos gêneros kung fu e pornochanchadas – principais obras exibidas durante o período estudado. As telas de cinema de estabelecimentos como Cine Royal e Cine Rex foram instrumentos que veicularam representações de erotismo, sexualidade, violência e artes marciais que eram consumidas, principalmente, pelo público masculino. Desta forma, para além do consumo dos filmes, estes locais se constituíam enquanto espaços de sociabilidade que poderiam corroborar para a consolidação de masculinidades viris e heteronormativas, em um contexto de liberalização das práticas sexuais, a depender de como os homens consumiam as obras exibidas. No decorrer da pesquisa, foram utilizadas entrevistas com frequentadores dos cinemas e fontes hemerográficas dos jornais O Dia e O Estado, que divulgavam os filmes em cartaz, assim como notícias relacionadas às práticas e costumes que envolviam as salas de cinema. Alguns dos interlocutores elencados para a discussão foram Pierre Bourdieu e Stuart Hall.

EAST ART MAP| TU(O)RNS_AROUND

Lais Rabello de Andrade

Esse artigo explora o projeto East Art Map, desenvolvido pelo coletivo IRWIN, situando-o como uma resposta crítica à hierarquia taxonômica da história da arte ocidental universal (Močnik, 2006). O projeto, dividido em duas fases, insere práticas artísticas e conexões do Leste Europeu que antes foram silenciadas. Enquanto prática de pesquisa artística, o East Art Map alinha-se a teorias contemporâneas como research-based art (Bishop, 2023) e educational turn (Rogoff, 2008). Politicamente, o projeto incorpora o spatial turn (Piotrowski, 2012), sublinhando a necessidade de abordar a geopolítica nas práticas artísticas, como um meio de produzir conhecimento que transcende o colonialismo.

 

EM BUSCA DAS DIFERENÇAS. ENSAIO PRELIMINAR FACE A UMA SOCIOLOGIA DA NEURODIVERSIDADE

José Bola

O fenómeno da neurodiversidade tem sido encarado como uma categoria central nos debates sobre diferença, saúde mental e inclusão. O modo como circula é espelhado no campo académico, marcado por ambiguidades disciplinares. Este trabalho promove, de forma exploratória, um pensamento que reflita a neurodiversidade enquanto construção social da doença. Em vez de a destacar como variação neurológica, percorremos uma revisão narrativa sobre o modo como se converte num marcador social daquilo que é típico ou desviante, articulando teoria sociológica clássica e contemporânea. A partir da historicidade, dos paradigmas contemporâneos e de possíveis desafios emergentes, argumentamos que a neurodiversidade deveria funcionar como uma ramificação disciplinar da Sociologia, uma gramática cultural que pode redefinir as fronteiras do interacionismo simbólico. A lacuna consistente de literatura nacional torna necessário problematizar a neurodiversidade enquanto construção social, explorando os efeitos que produz nos indivíduos.

 

FOTOGRAFIA SENSORIAL: UMA EXPERIÊNCIA DE EDUCAÇÃO ARTÍSTICA JUNTO ÀS PESSOAS COM CEGUEIRA E BAIXA VISÃO

Cristianne Melo

Comumente a prática fotográfica não é inclusiva, as barreiras envolvem questões físicas, técnicas, comunicacionais e atitudinais. Ademais, o domínio da visão impera sobre o consumo e a produção de imagens. No entanto, pode-se questionar: o que a fotografia captura para além da visão? Há uma relação entre o visível e o invisível que atravessa a imaginação, a memória, os sentidos, as experiências, os afetos. Assim, a produção fotográfica não pode ser resumida à capacidade de enxergar, faz-se necessário expandir nossa compreensão sobre o ver, questionar a hegemonia visual, bem como ampliar a experiência sensorial no universo criativo da fotografia. Neste sentido, o presente estudo descreve uma experiência de educação artística junto às pessoas com deficiência visual, ao relatar encontros que estimularam a construção artística, sensorial, discursiva e simbólica por meio dos sentidos, como o tato, audição, paladar e olfato.

 

BREAKCORE OU A CONTEMPORANEIDADE DE UM GÉNERO REAVIVADO

Pedro Ferreira

A internet, ao longo das décadas, tem-se solidificado como um espaço onde as representações de vários traços socioculturais da sociedade contemporânea se demonstram com clareza, e isto está cada vez mais nítido na expressão artística também. O breakcore aparece como um desses elementos, como movimento artístico visual e auditivo, mas também como figura cultural da internet. Este estilo moderno, apesar de nascer dentro das subculturas underground juvenis e industriais dos anos 90, acaba por evoluir e ser apropriado e incorporado pela internet durante os 2010s. Desta forma, os simbolismos originais do breakcore transfiguramse, passando de algo focado dentro de um segmento geográfico, punk, revolucionário, para algo descartado de espaços e rituais físicos, onde os clubes são substituídos pelos social media. Esta transição de cenas musicais é essencial para perceber o breakcore sociologicamente, onde devemos ter em conta certas mudanças que relembram traços compositivos da cena musical underground moderna, difusa na internet.

 

WALK ON MY SHOES E “O INFERNO” DE SER “O OUTRO”: DIVERSIDADES E DESAFIOS PRESENTES NOS SILENCIAMENTOS FEMININOS

Martina Viegas
Luara Fukumoto

Nascer, tornar-se, reconhecer-se mulher? Questões em contextos de mobilização e reflexão sobre os desafios nos silenciamentos que tocam mulheres (nascidas ou que se reconhecem como mulheres): “as donas de casa”, a quem não é permitido ser “donas de si”; as “egoístas” que não desejam ser mães, colocando em xeque expectativas biológicas; as “arrogantes”, “autocentradas” demais; as objetificadas; as que “queimam” semelhantes em fogo amigo… Exemplos que mostram que desde o ventre são atribuídos às mulheres papéis de utilidade que tornam-se ferramentas de controle social, os quais acreditamos tratarem-se de ferramentas moderadoras da liberdade feminina – por permearem todos os silenciamentos, como demonstramos aqui por meio de um olhar Comunicacional-Afetivo-Ético e Estético em formato de ensaio – manifesto feminista. Apresentamos, deste modo, (neste artigo e em primeira mão), nosso projeto Walk On My Shoes, onde expandimos nossa abordagem de feminismo com autoras feministas que consideram diversas interseccionalidades atravessadas em sociedade pela cultura patriarcal aqui representada materialmente e por vias da Arte e Design em proposições provocativas de calçados femininos.

 

Resenhas/Recensões

RECENSÃO CRÍTICA DO LIVRO. TETRAPHÁRMAKOS DE ALBERTO PIMENTA

Lúcia Evangelista

O texto consiste numa recensão da reedição, pela editora 7Nós, dos quatro livros de estreia de Alberto Pimenta — O Labirintodonte (1970), Os Entes e os Contraentes (1971), Corpos Estranhos (1973) e Ascensão de Dez Gostos à Boca (1977) — agora reunidos na caixa-conjunto Tetraphármakos (2025). Mais do que uma operação de recuperação editorial, a publicação é lida como um objeto performativo que materializa a dimensão corporal, histórica e política que atravessa a obra do autor. Destacam-se, nos livros iniciais, traços que atravessam a sua poética, como o viés metapoético, a paródia e a crítica às formas hegemónicas — poéticas e sociais —, bem como a transformação formal dos poemas em função de contextos históricodiscursivos distintos.