Apresentação

Paula Guerra 

PALCOS EM DISPUTA. O PALCO DA IMAGINAÇÃO. O PALCO DOS CONFLITOS. O PALCO DAS RESISTÊNCIAS

 

Artigos

A TRANSFORMAÇÃO DO OLHAR: ESTÉTICA DECOLONIAL NA ARTE CONTEMPORÂNEA BRASILEIRA E PORTUGUESA

Victor Tuon Murari
O artigo investiga como a estética decolonial transforma o campo da arte contemporânea brasileira e portuguesa, propondo novas narrativas que desafiam a hegemonia eurocêntrica e promovem a valorização de práticas artísticas marginalizadas. Baseado em referenciais teóricos como Aníbal Quijano e Walter Mignolo, o estudo analisa a descolonização do olhar, enfatizando a importância de resgatar sensibilidades e saberes silenciados. No Brasil, a produção artística destaca questões ligadas à diáspora africana, culturas indígenas e memória da escravidão. Em Portugal, as obras refletem criticamente sobre o legado colonial e suas implicações atuais. O artigo conclui que a estética decolonial não apenas revisita a história da arte, mas a ressignifica, apontando para futuros mais inclusivos no âmbito da criação, circulação e recepção artística.
 

IMAGEM E PALAVRA: RASTREANDO AS BORDAS DA CRIAÇÃO

Monica Toledo Silva

A compreensão do trabalho artístico como processo, pensamento e performance do corpo é apresentada neste artigo através da discussão acerca da intersubjetividade em práticas de troca e exercícios de presença, como viabilizadores do ato de criar imagens. O texto une termos de Édouard Glissant (relação), Augustin Berque (pensamento paisagem), William James (experiência), Janet Bennett (actante), dentre outros, filósofos e estudiosos da performance exemplificam uma abordagem entre sujeitos e objetos desde um entendimento da criação como uma ação do corpo inserida num tempo e lugar determinantes na elaboração de enunciados. Poemas do livro Deságua e imagens videográficas compõem esta proposta de entendimento da criação como ato híbrido enraizado na experiência e na vivência como relação.

REINVIDICAR O PODER: AUTODEFESA E VULNERABILIDADE EM GENTILESCHI E BOURGEOIS.

Francisca Sousa

Ao longo da história, a ideia de poder do e sobre o corpo tem sido um tema central no mundo da arte. Representado sobre os seus vários contextos – político, social, físico, sexual -, o poder exibe-se enquanto ideia complexa entre o domínio físico e a força de carácter abstrato. Frequentemente associado na arte à violência e à brutalidade masculina, o poder promulga-se especialmente sobre o corpo feminino, inevitavelmente através de um jogo de domínio e submissão. Ter poder sobre o próprio corpo é um dos aspectos mais importantes do trabalho das artistas da década de 1970, que se prolonga até aos dias de hoje debaixo dos holofotes de movimentos como o “Me Too” e de outros questionamentos acerca das políticas do corpo. Não esqueçamos que não só na contemporaneidade se dão estas reivindicações, uma vez que a pintora barroca Artemisia Gentileschi dedicou grande parte da sua obra ao triunfo da heroína feminina sobre um antagonista masculino. De formas mais subjetivas, o poder é reclamado por Louise Bourgeois através da vulnerabilidade com que trata a sua poderosa identidade feminina. A mulher transforma-se numa lâmina para enfrentar o trauma.

 

DE MULHER-OBJETO A RAPPER-SUJEITO: O LUGAR DA MULHER NO RAP PORTUGUÊS

Rafaela Enes de Miranda

Este artigo científico prende-se com os papéis de género, nomeadamente os papéis femininos, e o género musical do RAP, em particular no caso português, e o modo como as questões feministas na arte urbana são inerentemente revolucionárias, especialmente no contexto atual de retrocessos de direitos humanos e das mulheres a nível global. Consideramos pertinente a análise desta temática tendo em conta a problemática do enviesamento masculino e misógino das narrativas do RAP e das suas implicações nos/as ouvintes. A partir desta problemática, procuraremos fazer uma contextualização histórica e social do RAP português, abordando as relações, as dinâmicas e os papéis de género dentro deste tipo de música, nomeadamente os papéis assumidos pelas mulheres. Neste sentido, analisaremos as dez canções de RAP mais populares em Portugal por artistas de nacionalidade portuguesa ou luso-descendente, em que cinco destas são de autoria de rappers masculinos e as restantes cinco de rappers femininas.

 

A EXECUÇÃO DO IMPERADOR MAXIMILIANO (1868-69) DE MANET EM PERSPECTIVA ECFRÁSTICA

Fabiane Magalhães Machado e Niura Aparecida Legramante Ribeiro

Este artigo analisa a obra A execução do Imperador Maximiliano (1868-69) de Édouard Manet a partir da perspectiva da écfrase, explorando as relações entre pintura, fotografia e narrativa histórica. Considera-se a possível influência de registros visuais e relatos jornalísticos da época no processo criativo do artista. A análise aborda, ainda, as questões políticas que cercam a obra, como a censura a uma litografia sobre o mesmo tema e a rejeição da pintura pelo Salon de 1869, refletindo sobre as conexões entre arte, poder e memória.

 

“INFLAMANDO O ARDOR BÉLICO”: O TEATRO EM LISBOA DURANTE AS INVASÕES FRANCESAS (1808-1810)

João Victor Ribeiro Pires

Através de fontes variadas como a imprensa e a documentação da polícia, este artigo analisa o papel desempenhado pelo teatro em Lisboa durante o período das invasões francesas, isto é, entre 1808 e 1810. Defendemos que, apesar do período ter resultado em marcantes dificuldades para os profissionais das principais casas de espetáculo da cidade, as ações dramáticas tiveram um direcionamento político e representaram um espaço de difusão de ideias e um campo de resistência aos franceses na capital do reino.

 

TEMOR DA IDADE ADULTA: DRAMA DE ONTEM E DE HOJE

Silvia Regina dos Santos Coelho, Candido Alberto Gomes e Ivar César Oliveira de Vasconcelos

Este trabalho investiga as relações entre os mitos clássicos na fábula de Peter Pan, narrada pela obra audiovisual “Em Busca da Terra do Nunca”, com o objetivo de analisar as implicações sociais e educacionais do temor da idade adulta que acomete jovens na infância e adolescência. Além disso, verificam-se as implicações do aumento da expectativa de vida das populações contemporâneas, com a sua coorte de mudanças sociais, educacionais e econômicas. Assim, cresce o tempo de espera para a vida adulta, em meio a angústias e transtornos. A análise bibliográfica se baseou na filosofia de Platão, no pensamento de Edgard Morin e na perspectiva sociológica de contemporâneos, além de remeter a itens da teoria psicanalítica. Concluímos que as dificuldades de ingresso na vida adulta conferem maior complexidade às identidades atuais.

 

Resenhas/Recensões

RESENHA DO LIVRO. ESTÉTICA E EMPODERAMENTO: ARTE CONTEMPORÂNEA DA EUROPA CENTRAL PÓS- SOCIALISTA

Lais Rabello de Andrade

Esta recensão propõe uma leitura de “Empowering Aesthetics: Contemporary Art from Post-Socialist Central Europe”, de Denisa Tomková, como um gesto crítico inscrito na interseção entre arte e política. Contra a tendência de ver nessa justaposição um enfraquecimento mútuo — seja da autonomia da arte, seja da potência política — Tomková formula o conceito de empowering aesthetics para nomear práticas artivistas que problematizam esse entrelugar, abrindo-o como espaço de resistência e de empoderamento do coletivo através do indivíduo. O livro opera sob a lógica local-global, trazendo estudos de caso referentes à Europa Central pós-socialista — práticas situadas de artistas Romani, da diáspora vietnamita, queer, feministas e com deficiência — para formular fabulações críticas que mostram como as práticas artísticas podem intervir nos modos pelos quais identidades e comunidades são atravessadas pela violência estrutural. Assim, “Empowering Aesthetics” reinscreve a estética como espaço de resistência cotidiana, duracional e contínua, que almeja a destituição de estereótipos coloniais e patriarcais através da sua apropriação.

 

RESENHA DE LIVRO. A NOVA FOTOGRAFIA: RESPONSABILIDADE NA COMUNICAÇÃO VISUAL

Márcia F. S. Gonçalves

Frank Webster, sociólogo britânico, analisa criticamente a fotografia enquanto meio de comunicação simbólica e instrumento de propaganda. A obra, dividida em oito capítulos, explora a evolução tecnológica da fotografia, a sua relação com o fotojornalismo e os impactos culturais e políticos da imagem. Webster argumenta que a fotografia, embora aparentemente objetiva, é sempre mediada por códigos culturais e subjetividades individuais. Através de uma abordagem interdisciplinar — sociologia, antropologia, linguística e comunicação — o autor desconstrói símbolos visuais, questiona estereótipos e revela o papel político do fotógrafo. Defende que a compreensão dos mecanismos comunicativos e culturais pode formar fotógrafos mais conscientes e críticos. Apesar de datado estilisticamente, o livro permanece relevante ao evidenciar como a fotografia é tomada como verdade, sem questionamento, e carregada de significados culturais.